Entrevista exclusiva: N.O.M fala sobre dificuldade de promover no k-pop: “preconceito e oposição ainda existem”


  • 11/09/2021 - 11:00
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N.O.M mistura waacking e voguing em suas coreografias

O k-pop como conhecemos, apesar da grande variedade de grupos e estilos, é baseado em uma ideia de “ídolos”, “idols”, como são chamados os artistas de k-pop. Com foco em um público jovem, e sendo a cultura coreana mais conservadora, na maioria das vezes os estilos de música e dança acabam atendendo a essa expectativa de artistas feitos para agradar esse público. Nesse contexto, artistas que apostam em estilos de música ou de dança mais diversos acabam, muitas vezes, não atraindo a devida atenção.

Um desses exemplos é o N.O.M. O grupo começou sua carreira em 2013 e não trouxe em sua formação um grupo de jovens no estilo que o k-pop estava acostumado a ver, e sim homens com roupas justas, salto alto e um visual pra lá de sensual. Para conhecer um pouco mais sobre a carreira de um grupo de k-pop que foge do óbvio e traz diversas referências de estilos de dança e da música pop em seus trabalhos, batemos um papo com o N.O.M.

N.O.M é uma sigla para “Nature of Man”, algo como “a natureza do homem”. O grupo foi fundado pelo integrante JK, que também é o diretor executivo da empresa que gerencia as atividades do grupo. Ele nos conta que a ideia de lançar um grupo de k-pop que fugia de estereótipos heteronormativos surgiu de suas experiências fora da Coreia. “Eu tive a ideia em 2013. Originalmente eu era modelo e ator de musicais. Como conheci muitas culturas em viagens pelo exterior, criei uma equipe de atuação com esse conceito. Fui a vários shows, clubes e festas para construir minha carreira e desenvolver minhas habilidades e, em 2020, fizemos nossa estreia oficial. O diferencial desse conceito é o fato de os homens podem dançar de salto alto e criar uma apresentação a partir daí, assim como as mulheres usam calças sem afetar a masculinidade ou feminilidade de ambos”, explica JK.

Apresentações de dançarinos com saltos altos é algo muito característico de dois estilos de dança que surgiram nos Estados Unidos: o voguing, estilo caracterizado por movimentos de braços; e o waacking, dança de rua que surgiu nas discotecas com foco no público LGBTQIA+ de Los Angeles nos anos 70. As duas danças têm em em comum o uso de movimentos com os braços, pernas e tronco e a importância dada às expressões. Tem que saber fazer “carão” e arrasar na coreografia, algo que o N.O.M adaptou para o k-pop. “Na Coreia, apenas dançarinos de rua praticam waacking e voguing. Não é algo muito conhecido pelo público. Então escolhemos esses estilos para divulgar o waacking e o vogguing”, conta KOM, irmão de JK que também faz parte do grupo. Apesar das influências dos estilos de dança de rua, ele deixa claro que “o N.O.M não dança apenas waacking e vogguing e aposta mesmo é em um estilo único próprio do N.O.M”.

Se a dança o N.O.M aposta em influências de estilos que têm raízes nas discotecas, a sonoridade do grupo também traz uma viagem no tempo. “Nossa música mais nova é inspirada nas músicas dos anos 90. O motivo era que queríamos expressar mais uma vez a paixão, a ambição e a liberdade da juventude daquela época”, conta B-Side, integrante que se juntou ao grupo recentemente. Essa musicalidade, no entanto, é produzida com foco na apresentação visual do N.O.M, dada a importância que o grupo dá aos aspectos visuais e de dança. “Na verdade nosso maior foco é na performance. Ao fazer e produzir música, primeiro decidimos sobre a performance, o figurino e o conceito, e então começamos a fazer música. A maior força da N.O.M é a aparição no palco e a imagem mostrada no vídeo”, explica KOM.

A trajetória do N.O.M como artista de k-pop começou oficialmente em 2020, segundo eles, apesar da trajetória do grupo ter começado há quase uma década. Na época, o N.O.M tinha outra formação e, do elenco original, apenas os irmãos J.K e KOM permanecem no grupo. “Quando comecei a promover com um grupo de performance, eu chamei meu irmão mais novo. KOM também tinha charme e talento, então começamos sem nenhuma dificuldade. Acho que é possível porque somos irmãos”, acredita o líder. Já B-side passou a fazer parte do grupo em 2018. “Eu originalmente era rapper na Coreia. Conheci os irmãos e JK me convidou para participar do grupo. No início foi difícil tomar uma decisão mas depois de pensar muito, aceitei o convite para apenas uma apresentação. Depois de me apresentar, decidi participar do grupo definitivamente”, ele conta.

“Como somos um grupo de performance não tivemos um álbum para promover (em 2013). Mas mesmo assim recebemos uma boa resposta e interesse do público. Mas naquela época o k-pop não era tão divulgado. No entanto, preconceito e oposição ainda existem”, destaca J.K. “Foi uma entrada muito difícil no início. Tivemos que quebrar o conceito de ‘idol’ que existe. No entanto, o produtor do ‘M Countdown’ (programa musical da emissora Mnet) avaliou e optou por dar uma chance à singularidade que o N.O.M representa e participamos do programa. Sou muito grato”, ele completa.

Além do visual sensual dos cantores, os vídeos do N.O.M também usam recursos imagéticos para fazer referência a conteúdos mais adultos, com metáforas para temas de cunho sexual. Sendo um país conservador e tão acostumado com artistas com estilos mais “comportados”, o grande público da Coreia não se rendeu ainda totalmente para grupos como o N.O.M. “A Coreia ainda está presa ao conceito ‘idol’. Portanto, não é fácil trabalhar. Fazemos muitos ajustes, revisões e reuniões, tomando cuidado para não desviar muito (do estilo do k-pop). Por exemplo, tendo a prestar muita atenção nessa parte, como o nível de exposição ou a letra de uma música”, conta J.K. 

Apesar de ainda não ser tão bem aceito pelo grande público acostumado com o estilo do k-pop, J.K conta que o trabalho do N.O.M tem sido bem recebido em boates da Coreia. “Este é um conceito comum no exterior. No entanto, a maioria desses artistas vêm de países ocidentais. Havia poucos países asiáticos em que podíamos apresentar, porque não é comum ver asiáticos que são altos e com esse porte físico. Na Coreia, a reação no palco é muito quente. No início, pensavam que éramos estrangeiros. Agora já somos vistos como coreanos e é muito bom, pois muitas pessoas nos apoiam por esse novo gênero e aparência. Eu agradeço por isso”.

Entre 2013 e 2014, o N.O.M lançou dois singles e, até o ano passado, o grupo estava sem lançamentos musicais, mas sem ficar distante dos palcos. “Nos últimos anos, temos feito várias atividades no exterior como um grupo de performance. Fizemos vários shows, e apresentações em clubes e festas. Em 2017, a empresa foi estabelecida e comecei a produzir grupos femininos, mas sem atividades com o N.O.M. Em 2018, começamos novamente quando B-Side entrou no grupo”, conta J.K. Sobre ter seu irmão como diretor da empresa, KOM comenta: “Como ele também é o representante da empresa, ele faz várias coisas ao mesmo tempo. Não é só um cantor. Ele faz um ótimo trabalho como gerente e produtor. O conceito geral e o planejamento é feito por J.K, mas depois disso os detalhes são discutidos com todos os integrantes. Mas J.K é também um ditador”, ele brinca.

Quem quiser conhecer mais sobre o trabalho do N.O.M, vale a pena ouvir “MEGA PUNCH”, música mais recente do N.O.M, que faz referência aos anos 90. “Na Coreia, há um apelido dado à geração jovem dos anos 90. É chamado de Geração X. Defendemos e expressamos essa Geração X nessa música”, KOM explica. O nome do novo álbum do trio faz referência ao ano de 1998 e o videoclipe traz, além do estilo único do N.O.M, diversas referências à época. Com seu trabalho, o grupo espera fazer algo que possa atingir todo o público, sem distinções. “Nós não consideramos as atividades para qualquer pessoa ou grupo específico. Nós não nos importamos sobre quem é. Qualquer pessoa que ame N.O.M e respeite e ame nossa música seremos imensamente gratos. É sem limites. A música é uma harmonia que pode unir toda a humanidade”, diz B-Side.

Além de “MEGA PUNCH”, o grupo adianta que planeja ser mais ativo nos lançamentos musicais. “ Sim! Estamos preparando para um novo álbum em breve. Gostaríamos de mostrar músicas ainda mais diversas e legais nas performances. Provavelmente o próximo álbum vai conter algo mais real sobre o N.O.M”, antecipa J.K.

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