Idol x Artista, Grupo x Banda… afinal, o que significam esses termos na indústria do k-pop?


  • 02/07/2020 - 14:59
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Tempo de leitura: 10 min.

Acompanhar a indústria do k-pop, os lançamentos, as novidades, nos deixa também habituados com alguns termos popularizados por essa cultura. Alguns fãs inclusive preferem usar termos em inglês ou coreano, ao invés de palavras em português, por estarem acostumados a ver essas palavras sendo usadas por seus ídolos ou por fãs internacionais.

Um dos principais exemplos é a palavra “comeback”. O termo, que quer dizer “retorno” em inglês, é usado para denominar um novo lançamento de um artista no k-pop. A palavra “comeback” se tornou tão usual entre os fãs que, com a popularização do k-pop, a imprensa especializada em música pop e fãs de outros gêneros musicais passaram a usá-la também para falar de novidades musicais de artistas ocidentais.

Ao mesmo tempo, outras palavras se tornaram populares, muitas apenas popularizadas pelo constante uso de termos em inglês: “MV” ao invés de “videoclipe”, “bias” como integrante preferido de algum grupo; “disband” para falar da separação de um grupo, entre outras.

Isso acontece também entre outros grupos de fãs. Com os fãs de animês e mangás, por exemplo, é comum ver termos em japonês para falar sobre as suas obras favoritas. Quem acompanha mangás e animes provavelmente está habituado às segmentações de gênero como shounen, shoujo, BL… é comum também ver os fãs de animê e mangá se chamarem de “otakus”. O termo, por sua vez, divide opiniões. No original em japonês, ele pode ter dois significados: um, é a maneira respeitosa de se referir à casa de alguém e outro, dirigido às pessoas com quem não se pretende ter um relacionamento mais próximo. A partir dos anos 80, o termo passou a ser usado para se referir também às pessoas que fizessem um consumo intenso de tecnologias ou de produtos midiáticos. A palavra “otaku” passou a ter então uma visão pejorativa, de alguém pouco sociável. No entanto, com a popularização dos animes e dos mangás no Brasil, o termo foi frequentemente usado para definir fãs de anime e mangá. Seu uso constante deu à palavra no Brasil um novo significado, sem a carga pejorativa. Alguns fãs, no entanto, preferem não ser chamados de “otakus”, devido à conotação negativa. Outros, veem a palavra apenas como um termo para designar qualquer fã de animê ou mangá.

Essa discussão sobre significados de termos próprios de um grupo de fãs é comum, se pensarmos que quando um produto é exportado de seu país e passa a se relacionar com diferentes culturas, ele está sujeito a ser ressignificado e interpretado de formas diferentes por esses novos públicos.

Essa discussão pode ser aplicada também aos termos usuais do k-pop. Uma discussão possível é entre as palavras “idol” (em português, “ídolo”) e “artista”.

Ídolo X Artista

Para falar sobre isso, vale lembrar que o k-pop surgiu na Coreia como um estilo musical voltado especialmente para o público adolescente. Isso não quer dizer que só pessoas mais jovens escutam k-pop, mas sim que quem está por trás dessa cena pensa seus produtos com foco nesse público. Entre os fãs de k-pop, é mais comum o uso do termo “idol” ao invés do português “ídolo”, até mesmo no Brasil. Nesse texto, no entanto, optamos por usar prioritariamente o termo em português.

A palavra “ídolo” é usada no k-pop para falar sobre esses jovens cantores, que foram treinados para serem celebridades e fazem parte de grupos, que cantam, dançam, além de ter talentos diversos, como para programas de variedade, publicidade e atuação. A ideia de “ídolo” é muito mais ligada ao seu carisma, popularidade, status perante o público, do que seus dotes artísticos.

A palavra “artista”, por sua vez, é usada para falar de cantores que possuem um domínio maior de sua carreira: que compõem, produzem, coreografam, enfim, que possuam uma participação mais ativa na construção de seu trabalho.

Essa definição, no entanto, nos parece um tanto limitadora. Um artista não pode ser um ídolo? Ele não pode ser popular entre seu público, referência para seus fãs, e também ser reconhecido por seus talentos?

Para falar sobre isso, vamos pensar um pouco sobre a origem da palavra “ídolo”, por isso a escolha por falar aqui no termo em português, para facilitar essa compreensão. Essa palavra tem origem no grego εἴδωλον (eidolon), que significa o objeto de desejo e de fetiche. Dessa ideia, surgiu a palavra ídolo, algo a ser cultuado e admirado. A ideia de ídolos na música passou a ser mais usada a partir do sucesso de cantores que faziam sucesso com o público adolescente nos anos 50, como Elvis Presley. O cantor Ricky Nelson tem o título de “o primeiro ídolo adolescente” por ter se popularizado não apenas por sua música, mas também por seu sucesso na TV.

A ideia de ídolos no k-pop remete tanto à origem do termo, quanto ao uso dele na indústria fonográfica ocidental: jovens artistas que são cultuados pelo público adolescente. Não há dúvidas que os fãs do k-pop realmente cultuem seus artistas favoritos e que demonstrem toda sua admiração por eles e por suas diferentes facetas no entretenimento.

No entanto, não podemos negar também que cada vez mais esses ídolos têm conseguido espaço na indústria do k-pop para compor e produzir seus trabalhos. G-dragon e os meninos do BTS são alguns dos exemplos mais conhecidos de artistas que ganharam mais espaço para se expressar musicalmente. Ao mesmo tempo, não podemos dizer que eles deixaram de ser ídolos, em seu sentido original. Pelo contrário, a popularidade do BTS só aumenta e, com isso, eles continuam a ser cultuados e admirados por seus fãs, e portanto continuam sendo tratados como ídolos.

Essa ideia de que os ídolos do k-pop começam como celebridades com foco na idolatria dos fãs, em agradá-los com seus diferentes talentos, e passam a ser artistas apenas quando se envolvem em seus trabalhos pode causar estranhamento em uma perspectiva ocidental, principalmente se pensarmos em um contexto mais amplo da música. Ser artista é apenas compor, produzir e não cantar e interpretar? O chamado “rei do rock”, Elvis Presley, não era compositor. Uma das maiores vozes da música brasileira, Elis Regina, também não compunha suas canções. Alguém se atreveria a não chamá-los de artistas? Da mesma forma, podemos pensar em grandes cantores do k-pop que são considerados “ídolos” e não “artistas”, por não serem compositores ou por não terem essa liberdade artística em suas empresa. Na maioria das vezes, essa limitação se dá muito mais por parte das gravadoras, que preferem ter controle sobre seus produtos, do que pela falta de interesse dos artistas. Alguns acabam por preferir deixar os grupos ou por buscar carreiras solo para enfim conseguir se expressar artisticamente de forma mais livre. Portanto, é interessante perceber as diferenças dos usos desses termos na cultura do k-pop, e principalmente a popularização do termo “idol” devido ao k-pop, mas é igualmente importante não deixar que tais rótulos limitem nossa percepção sobre esses cantores.

Grupo X Banda

Outro termo que gera discussão é a definição de “grupo” e “banda”. Quando um portal de notícias brasileiro, por exemplo, usa a palavra “banda” para falar de nomes como BTS, EXO, GOT7, entre outros, não é raro ver fãs de k-pop comentando que não se trata de uma banda, e sim de um grupo. Segundo essa lógica, “banda” é um termo que deveria ser usado apenas para designar nomes como FTISLAND, CNBLUE, DAY6, etc. Entendemos que esses termos se tornaram populares entre os fãs de k-pop para diferenciar grupos como aqueles que cantam e dançam, e bandas como aqueles que tocam instrumentos. Mas será que criticar quem usa esses termos de outra forma faz sentido?

Para isso, vamos buscar primeiro a definição das duas palavras no dicionário coreano:

그룹 (group)
[명사] 1. 함께 행동하거나 공통점이 있어 한데 묶일 수 있는 사람들의 무리

GRUPO 
[substantivo] 1. conjunto de pessoas que trabalham juntos ou podem ser visto como um só por ter características semelhantes

밴드 (band)
[명사] 1. 각종 악기로 음악을 합주하는 단체. 주로 경음악을 연주한다. ‘악단’, ‘악대’로 순화.
2. 3~8명으로 구성되어 악기를 연주하면서 노래도 함께 하는 연주 단체.

BANDA
[substantivo] 1. Conjunto que tocam música com instrumentos diversos, geralmente tocando música para público. Pode ser entendido também como ‘악단’ e ‘악대’ (nota: outros sinônimos de banda no idioma coreano).
2. Grupo de instrumentistas composto por 3 a 8 pessoas que tocam instrumentos e cantam.

A palavra “grupo” não possui definição apenas no sentido musical, mas sim em um sentido mais amplo. Já a palavra “banda” define exatamente aquilo que é defendido pelos fãs de k-pop: um conjunto de instrumentistas.

Agora falaremos um pouco sobre o uso dessas palavras em nosso país. No Brasil, há algumas décadas, era comum o uso do termo conjunto musical. O mesmo termo era usado tanto para nomes como Dominó e Menudo como para Kid Abelha e Queen. Um conjunto musical era uma reunião de músicos em um mesmo projeto ou grupo. A palavra caiu em desuso e passamos a chamá-los de grupos ou bandas, sem muita diferenciação pela formação musical dos integrantes.

Ao mesmo tempo, no mundo da música, é comum usar termos para definir as diferentes formações musicais. Um conjunto musical formado apenas por cantores, normalmente sem instrumentistas, é comumente chamado de grupo vocal, pelo enfoque dado aos uso da voz e em sua harmonização. Com o tempo, foram surgindo novos formatos de grupos vocais, com vários vocalistas, mas com outras habilidades, como a dança. Popularmente, esses conjuntos musicais foram chamados de boybands (do inglês “banda de garotos”), quando formado por garotos, e girlbands (do inglês “banda de garotas”), quando formado por garotas. Pelo termo original em inglês incluir a palavra “band”, tornou-se usual no ocidente que, ao falar sobre um conjunto musical que canta e dança, fossem usados os termos grupo ou banda, na mesma medida. Com a popularização do k-pop, tornou-se comum também o uso dos termos boygroup e girlgroup (do inglês “grupo de garotos/garotas”) para falar sobre esses mesmos artistas.

O uso dessas duas palavras sem muita diferenciação se tornou comum entre os fãs de música no Brasil e também na mídia especializada. Por isso, é tão comum ver notícias de portais de música que denominam nomes como BTS, EXO e GOT7 como “banda”. Nessa perspectiva, o uso da palavra “banda” para conjuntos musicais sem instrumentistas não está errado. Estamos falando de outro idioma e também de outro contexto cultural. E afinal, tais conjuntos musicais são formado por vários vocalistas, e o que seria o vocalista senão um músico que usa sua voz como seu instrumento?

Portanto, na perspectiva de um fã que acompanha o k-pop e é fiel ao uso de seus termos, é legítimo que ele prefira usar os termos “grupo” e “banda” para diferenciar os conjuntos musicais de acordo com a formação de seus músicos. Na mesma medida, é também legítimo que quem sempre se habituou a chamar Backstreet Boys, New Kids On The Block, N’SYNC, Spice Girls, Rouge e outros nomes do gênero de boybands e girlbands use esse mesmo termo para falar de artistas coreanos que utilizam a mesma lógica, de ter vários vocalistas que dançam e não tocam instrumentos.

Aqui nas postagens de conteúdo da Highway Star optamos por usar nomenclaturas que estejam mais próximas do conhecimento geral do público brasileiro. Por isso, vocês verão muito mais o uso de “videoclipe” ao invés de “MV”, assim como evitaremos o uso de estrangeirismos, para tornar esse conteúdo mais familiar para quem não está tão habituado com o inglês ou com os termos próprios do k-pop. Assim como não faremos distinção entre “grupo” e “banda”, com todo respeito ao fãs que preferem fazê-lo. Também não trataremos de forma diferente “ídolos” e “artistas”, apesar de entendermos a lógica da ideia do “idol” dentro do k-pop.